Entendendo o que é ser antifrágil

Eu tive o imenso prazer de ser entrevistado pelo Rafael Buzon em um assunto que tem sido o objeto dos meus estudos nos últimos meses: a aleatoriedade. Abordamos conceitos que permeiam a incerteza e a antifragilidade. Mas você sabe o que é antifragilidade?

A antifragilidade é o oposto de fragilidade. Existe o frágil, o robusto e o antifrágil. Quando o frágil sofre um impacto externo ele se quebra. O robusto resiste aos impactos externos. Já o antifrágil, além de resistir, melhora quando sofre impacto. Imagine se houvesse um vaso raro, que ao ser enviado do Egito ao Brasil, melhora com os impactos da viagem. Em sua caixa, ao invés de “manipule com cuidado”, estaria escrito: agite antes de usar. Neste post o Rodrigo Yoshima aborda o assunto.

Por esses conceitos serem intrinsecamente complicados de assimilar, notamos que existe uma grande dificuldade em conectá-los com o mundo de TI. Nesse post introdutório pretendo explorar com mais calma o conceito de antifragilidade.

As duas principais referências nesses assuntos são os livros Black Swan e o Antifragile. Na minha visão, são obras complementares que nos mostram algumas opções e ferramentas para lidar com aleatoriedade. O Black Swan trata os desvios cognitivos que estão por trás do problema de não estarmos preparados para lidar com impactos importantes e aleatórios. Já o Antifragile nos dá ferramentas e caminhos para aprendermos como buscar uma situação antifrágil.

A antifragilidade no mundo real

Nos últimos meses, surgiram algumas dúvidas bem pertinentes com a popularização do conceito de antifragilidade na comunidade ágil brasileira. Muito mais que responder a essas dúvidas, tenho a pretensão de alimentar o debate, sempre sob a luz do meu entendimento do que expôs N.N. Taleb.

Há um interesse claro das pessoas em terem coisas antifrágeis. A dúvida que fica é: O que pode ser e o que pode não ser antifrágil? É preciso entender isso antes de adotar estratégias.

A antifragilidade é, na verdade, o estado de algo, então podemos assumir que as coisas de fato podem estar e não ser antifrágeis em sua essência. Esse estado de antifragilidade pode ser mantido e exercitado através de estratégias antifrágeis.

Uma empresa pode ser antifrágil?

Uma empresa poder estar antifragil, mas é preciso cuidado para manter esse estado. É preciso buscar decisões antifrágeis: fomentar a opcionalidade; fomentar o processo de experimentação direcionado a descobertas. Tudo isso para escolher rapidamente para onde não queremos ir.

Usar a estratégia barbell é uma ótima maneira de exercitar a antifragilidade em uma empresa. Trabalhar com os extremos é uma maneira de expor a empresa a resultados grandiosos. É assim que medimos o quão convexa é uma estratégia.

Uma pessoa pode ser antifrágil?

Os organismos vivos se beneficiam de uma antifragilidade inerente à natureza. Nosso organismo é preparado para a antifragilidade. Andar descalço torna a sola dos pés mais resistente. A academia fortalece seus músculos. Nas vacinas. Nos genes. A evolução é outro exemplo de antifragilidade, de como se beneficiam de impactos, positivos e negativos, através da mutação.

Nosso organismo é absolutamente antifrágil, independente de nossa vontade. Nós não precisamos de esforço pra manter nosso estado de antifragilidade, como numa empresa. As estratégias para lidar com impactos são do nosso organismo e não nossas. Assim, uma pessoa, os genes, o organismo, a estratégia de reparação das células, fazem uma pessoa ser antifrágil. Representam as estratégias resultantes da nossa evolução.

Um fluxo de trabalho pode ser antifrágil?

A análise sobre a antifragilidade de um fluxo de trabalho é muito similar à análise da antifragilidade nas empresas. Seguindo a mesma lógica, um fluxo pode estar antifrágil e não ser antifrágil. Num momento, o fluxo pode ser unificado com classes de serviço para atingir a antifragilidade, em outro ser dividido em times separados sem classes de serviço, fragilizando o fluxo.

O que muda aqui é a dinâmica. Um fluxo de trabalho pode ser fragilizado bem mais rápido que uma empresa. Por menor que seja, as alterações estratégicas de rumo demoram para propagar por toda uma empresa, enquanto as de fluxo podem acontecer do dia para a noite.

Antifrágeis até certo ponto

Como tudo na vida: somos antifrágeis até certo ponto. As coisas antifrágeis melhoram desde que resistam ao impacto. Há impactos que excedem a resistência e tem resultados destrutivos, mesmo em coisas antifrágeis. Isso acontece nas academias de musculação, quando o peso é excessivo as fibras musculares se rompem de maneira danosa e permanente.

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No próximo artigo da série vamos explorar os aspectos da antifragilidade na prática e aprender como usar esse entendimento nas nossas decisões do dia a dia. Deixe um comentário e não esqueça de conferir a entrevista no blog do Rafael Buzon.