Você quer ser ágil, aprender sobre a gestão moderna. E agora?

Bem, algo que eu previa a algum tempo finalmente está acontecendo. As empresas, que ainda estavam agarradas às formas arcaicas de gestão, acordaram para a gestão moderna. Não era algo difícil de prever, afinal esse é o caminho mais natural.

Nos últimos meses diversos amigos(as) me procuraram dizendo que a empresa estava pedindo que “ele/ela fosse mais ágil” e pediu indicações de cursos e certificações. Não faltaram menções às certificações Scrum, mas a grande maioria já não queria se prender a apenas um método. E isso é um cenário bem interessante, na minha visão. Isso já demonstra um bom nível de maturidade.

Como eu consigo me transformar em um gestor moderno? Não existe uma resposta fácil. Não é só fazer uma certificação ou uma faculdade. Não existe curso milagroso, nem de 6 meses, nem de 10 anos. O que existe é uma série bem programada de aprendizados, atitudes, comportamentos e exposição a diversas situações.

Como eu posso trabalhar apenas com a parte boa da gestão? Para trabalhar estas perguntas, vamos explorar o que considero os três pilares da gestão moderna: Teoria dos Sistemas, Teoria da Complexidade e o Lean.

Sobre a Teoria dos Sistemas

Você provavelmente não verá uma empresa como um sistema depois dos primeiros livros sobre a teoria dos sistemas. Se você é uma pessoa normal (e não um destes ETs supergênios), você demorará um bom tempo até o momento “eureca”: “caraca, é assim que isso funciona.” Quanto tempo? Impossível precisar, pois vai variar muito de uma pessoa para outra. Comigo aconteceu depois de 2 anos insistindo nos livros e experimentações.

Mas vamos ao que interessa: Como os mais atentos já perceberam, na minha opinião, a teoria dos sistemas é o pilar fundamental de toda a pessoa que deseja entender, interpretar e mudar uma empresa. De todos os tamanhos e segmentos. Essa teoria é completamente transversal. Entretanto, você não precisa só estudar e aprender a Teoria dos Sistemas. Você deve senti-la. Ela deve ser o seu “framework” em toda e qualquer análise de uma empresa, casa, pessoa, cidade, política, escola, trânsito, planetas, pessoas. Simplesmente tudo funciona como um sistema. Até os que acreditam estar fora do sistema estão dentro de outro sistema.

Como um bom framework, podemos chegar a unidades e relações na sua empresa que possuem propriedades muito semelhantes a outras empresas. Quando estamos aptos a entender e interpretar o sistema, passamos a trabalhar para influenciá-lo.

Algumas pessoas me perguntam: Mas Celso, por que você fala tanto em sistemas? Alguns me consideram até chato. Esta resposta é bem simples, mas vem em partes:

  1. Você precisa aprender a identificar padrões;
  2. Você precisa saber enxergar a big picture;
  3. Você precisa conhecer os limites de cada sistema e subsistema;
  4. Você precisa saber identificar as restrições e as interações entre sistemas e entre partes do mesmo sistema. Sem esse conhecimento e habilidade, você simplesmente fica cego e não conseguirá ajudar nenhuma empresa.

Sobre a Teoria da Complexidade

Estudando os sistemas complexos, suas relações internas e com outros sistemas, estaremos profundamente ligados à teoria dos sistemas. Na complexidade você estudará as propriedades. Nela está inserida a teoria das redes, por exemplo, que examina em detalhes as partes do sistema, mas principalmente suas interações. Entender a complexidade é fundamental para que seja possível intervenções eficientes e eficazes.

Como na teoria dos sistemas, você precisa não só entender, mas sentir a complexidade. Estamos na era da complexidade, é por isso nossa obrigação entende-la. E tratar sistemas complexos ou complicados como sistemas simples é um dos maiores erros da gestão tradicional.  Seu ambiente exige respostas rápidas, ações rápidas, reações rápidas. Isso é primordial se você quiser gerenciar de fato trabalhadores e projetos que transformam idéias em código. Admitir que a incerteza existe, e sempre vai existir. Criar o ambiente favorável para que todos reajam rápido com eficiência e eficácia. Essa é a lei.

Sobre o Lean

Com isso em mente, entramos no momento em que precisamos do Lean. Eu concordo com as pessoas que dizem que o Lean nasceu em um ambiente mais previsível que o ambiente de desenvolvimento de software. Entretanto, para mim, isso só aumenta o valor da solução, porque o modelo que eles criaram, nos deram uma série de princípios – poka yoke, stop the line, visualization, flow, value, filas, lead time, takt time, cycle time, estoque, just in time, etc – que podem ser adaptados e usados na gestão de fluxo de desenvolvimento de software. Não só no nível das histórias ou funcionalidades, mas é extremamente útil também na gestão do fluxo de projetos e na gestão de todo o fluxo de valor da empresa.

Um erro comum, entretanto, é a crença na suficiência do Lean para resolver todos os problemas de desenvolvimento de software. Isso não é verdade, nem como base. Sistemas, Complexidade e Lean são as ferramentas mais básicas de um gestor moderno de trabalho complexo, onde a incerteza está presente, em diferentes níveis, da concepção do projeto à sua entrega.

Além das ferramentas básicas, no horizonte das ferramentas avançadas, reina absoluto, na minha visão, o framework econômico de Don Reinertsen. E foi lendo o livro do Don que cunhei uma ferramenta que tem se mostrado bem útil para lidarmos com as variações onipresentes nos sistemas complexos: O Custo Médio por Demanda.

Com tudo isso dito, meu conselho mais importante aqui, penso eu, é para você não focar apenas no Lean para desenvolvimento de software, mas abrace os livros, textos e material que abordam a aplicação do Lean na indústria tradicional, como fabricação de carros, materiais adesivos ou na indústria de alimentos. Existem aplicações vastas e estudadas também na área da saúde. Será muito valioso para você interiorizar a cultura Lean.

Conclusão

Estes são os 3 pilares. Use-os com sabedoria. Você não precisará de todos eles ao mesmo tempo, mas você precisará das suas partes o tempo todo. Estes 3 pilares guiarão suas decisões, guiarão suas atitudes e guiarão suas intervenções.

Por último, estude os métodos. Estude-os, mas não se apaixone por eles. Não faz sentido paixão neste caso. Você usará um pouco de cada pelo resto da sua vida profissional, caso decida pela pílula azul.

Alguns comentários: Os livros não estão em ordem de importância e muito menos listei todos. Estes livros o levarão a um universo incrível que, se você seguir, atingirá o seu objetivo de se tornar uma pessoa que não só entende bem de processos e projetos neste mundo moderno, mas entende e sente sistemas. Alguns destes livros tem treinamentos. Consulte bem sobre a reputação da empresa de treinamento e não economize. Isso pode mudar a sua vida. Mire o livro do Don Reinertsen (Flow) durante o tempo todo. É uma obra fantástica que lhe dará uma visão econômica sobre sistemas e complexidade. Este livro é simplesmente fenomenal.

Sobre métodos? Bem, estude e faça cursos, caso ache necessário, de Extreme Programming, Kanban e Scrum. Entenda como escalar com o próprio Kanban, ou SAFe ou DaD. Mas pense neles como seu canivete suíço. Estes métodos foram buscar soluções para lidar com a complexidade no ambiente de trabalho, e todos são úteis. Repito, não nutra paixão pela ferramenta, pois seria a mesma coisa que um engenheiro nutrir uma paixão por uma chave de fenda. Use-as e principalmente entenda como e porque as está usando. Isso o ajudará a saber quando usar.

Literatura indicada

Vou sugerir uma literatura, mas você não deve ficar preso a ela. Pense nela como um guia.

Isso representa a minha opinião e de maneira alguma deve ser encarada como uma lista final. Nem daria para eu colocar todos os livros que considero importantes. Ainda existem tantos que tratam em como lidar com pessoas e times, por exemplo. Busque artigos, se embrenhe pelas teorias, busque textos em outras áreas, pois só desta forma você acostumará o seu cérebro a encontrar padrões e terá seu “momento eureca”.

O trabalho é árduo e pesado, mas isso transformará sua gestão em algo muito mais interessante que preencher planilhas e levar esporro de superiores e clientes.

  1. Lean Thinking – Womack & Jones
  2. Thinking in Systems – Donella Meadows
  3. Complexity – A Guided Tour – Melanie Mitchell
  4. Management 3.0 – Jurgen Appelo
  5. Toyota Production System – Bodeck & Ohno
  6. Complex Adaptive Systems – Miller
  7. Theory of Constraints – Goldratt
  8. How Creative Workers Learn – Alexandre Magno
  9. Out of the crisis – Deming
  10. Flow – Reinertsen